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quarta-feira, 25 de junho de 2008

um texto provocador...

ATALHOS
Martha Medeiros


Quanto tempo a gente perde na vida?
Se somarmos todos os minutos jogados fora,
Perdemos anos inteiros.
Depois de nascer,
a gente demora pra falar,
Demora pra caminhar,
Aí mais tarde demora pra entender certas coisas,
Demora pra dar o braço a torcer.

Viramos adolescentes
Teimosos e dramáticos.
Levamos um século
Para aceitar o fim de uma relação,
E outro século
Para abrir a guarda para um novo amor...

E já adultos
Demoramos a dizer a alguém o que sentimos,
Demoramos a perdoar um amigo,
Demoramos a tomar uma decisão.
Até que um dia a gente faz aniversário.
37 anos. Ou 41. Talvez 48.
Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto.
E a gente descobre que o tempo
Não pode continuar sendo desperdiçado.

Fazendo uma analogia com o futebol,
É como se a gente estivesse
Com o jogo empatado no segundo tempo
E ainda se desse ao luxo
De atrasar a bola pro goleiro
Ou fazer tabelas desnecessárias.

Que esbanjamento.
Não falta muito pro jogo acabar.
É preciso encontrar logo o caminho do gol.
Sem muita frescura,
Sem muito desgaste,
Sem muito discurso.

Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade,
É ir direto ao assunto.
Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada,
Pra todo o resto é melhor atalhar.
E isso a gente só alcança
Com alguma vivência e maturidade.

Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando,
Não esperam sentadas,
Não ficam dando voltas e voltas,
Não necessitam percorrer todos os estágios.
Queimam etapas.

Não desperdiçam mais nada.
Uma pessoa é sempre bruta com você?
Não é obrigatório conviver com ela.
O seu amor está enrolando muito?
Beije-o primeiro.
A resposta do emprego ainda não veio?
Procure outro enquanto espera.

Paciência só para o que importa de verdade.
Paciência para ver a tarde cair.
Paciência para sorver um cálice de vinho.
Paciência para a música e para os livros.
Paciência para escutar um amigo.
Paciência para aquilo que vale nossa dedicação

Pra enrolação...
ATALHO!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

sobre a emoção de correr a Super 40


Queridos colegas corredores,

Hoje, ao final da prova, o que para boa parte de vocês, foi apenas mais uma corrida, para mim foi a realização de mais um sonho, mais um desafio vencido, mais uma superação dos meus limites. Sei que foi o meu esforço pessoal, minha disciplina e determinação que me empurraram até a manhã de hoje. Mas sei também que o incentivo, o apoio, a receptividade, o respeito, o estímulo e o carinho de vocês foram fundamentais nesta minha “caminhada”. Cada um me deu uma dica, uma pequena orientação, um estímulo, uma palavra de incentivo; eu aproveitei o que pude e cá estou eu. Cansada sim, mas muito, muito feliz !

Muitos de vocês mal me conhecem. Alguns (poucos) desta lista privam da minha amizade pessoal fora da empresa. Estes certamente entederão este meu ato e, principalmente, o significado desta mensagem. Eu não conseguiria encerrar o meu domingo sem colocar no papel (digo, na tela do computador) um pouco do sentimento que corou minha conquista de hoje.

Na prova Super 40 do ano passado, eu compareci apenas como uma coadjuvante torcedora de 2 equipes. Sonhava, há muito tempo, em poder correr. Era um sonho impossível, eu ouvia e acreditava como verdade absoluta. Consegui provar pra mim mesma, que a gente pode muito mais do que aquilo que nos dizem que podemos. Mas precisamos acreditar mais em nós mesmos. Quero preservar comigo esta energia que me fez acreditar que eu poderia correr, para mudar todos os outros setores da minha vida e assim realizar todos os meus “sonhos impossíveis”. Hoje senti muito orgulho do meu feito e mais ainda, de acompanha-los numa atividade que realmente transformou a minha vida. E em muito pouco tempo.

Talvez tenha sido por isso que as lágrimas iam me turvando o olhar, quando avistei o pórtico da chegada, cumprindo um tempo de corrida inimaginável pra mim até há alguns meses atrás. Entretanto, a felicidade espantou o choro e a emoção represada acabou por me derrubar a pressão arterial alguns minutos depois...risos... Nada sério e em pouco tempo eu já estava refeita e de volta à alegre algazarra que promovemos na torcida por cada colega que passava por nosso ponto-de-encontro.

Para os colegas mais competitivos, nosso resultado geral pode ter ficado um pouco abaixo das expectativas. Como grupo, demos um show ! Há uns 30 dias atrás, éramos pouco mais de 20 pessoas interessadas. Não poderíamos supor que formaríamos um grande grupo, com 40 participantes, sem que ocorresse uma única falta. Estamos todos de PARABÉNS ! Comparecemos numa cinzenta manhã de domingo, cientes do nosso compromisso pessoal e para com o grupo. Por livre e espontânea vontade. Formamos realmente 4 equipes vencedoras ! Cada um de nós deu o melhor de sua capacidade e todos deixamos o Aterro vitoriosos, com um sorriso nos lábios, uma medalha no peito e uma penca de fotos para recordar. Foi uma linda festa ! Melhor do que eu mesma conseguiria imaginar diante daquela que participei no ano passado. Não é para me orgulhar de pertencer a um grupo assim ?

Muito obrigada por me receber tão bem neste seleto grupo ! Certamente, nossa formação vai variar bastante ao longo dos próximos eventos. Mas os primeiros idealizadores desta empreitada devem se sentir orgulhosos do grupo que se uniu a eles : não eram mais que 5 ou 6 corredores; hoje, fomos 40 ! Portanto, não deixemos esmorecer, na nossa lida diária, a energia e alegria que permeou nosso grupo hoje.

Tenhamos todos uma boa semana ! Bom trabalho e bons treinos !

Um abraço carinhoso,
Dayse Botelho
Rio de Janeiro, 6 de abril de 2008.
21h55

domingo, 22 de junho de 2008

Razão para este espaço

Alguns amigos queridos e outras pessoas muito especiais na minha vida, atualmente, têm me incentivado a retomar um hábito da minha adolescência e juventude : escrever. Ou melhor : colocar no papel meus sentimentos, emoções, pensamentos e palavras. É o que começo a fazer agora.
Durante anos escrevi muito, produzi vários textos, de qualidades e temáticas diversas. Meu senso crítico, fartamente "detonado" nos tempos da Faculdade de Letras, aliado ao meu estilo de vida à época, acabaram por "arquivar" este desejo de expor as minhas emoções em forma de texto. Eis que agora, a razão é posta de lado em favor da emoção. Tenho vivido tantos momentos especiais e emoções tão intensas que só mesmo o papel (ou melhor, a tela e o teclado de um computador) consegue acalmar minha alma plenamente, fazendo-me registrar a inundação de sentimentos que tenho vivido.
É disto que trata este blog, o moderno "livro" que rapidamente divulgamos entre os apreciadores de leituras e escrituras dos tempos modernos. É por mim, mas é prá vocês que me querem tão bem, cada um a sua maneira.
Com carinho,
Dayse
Rio de Janeiro, 25/6/2008.

tradução livre que eu fiz do POEMA em espanhol...

"Ao perder-te eu a ti
tu e eu temos perdido
eu, porque tu eras
quem eu mais amava
e tu porque era eu
que te amava mais.
Mas de nós dois
tu perdes mais que eu
porque eu poderei amar a outros
como te amava a ti
mas a ti não te amarão
como te amava eu."
======================================
Al perderte yo a ti,
tú y yo hemos perdido:
yo, porque tú eraslo que yo más amaba,
y tú, porque yo era el que te amaba más.
Pero de nosotros dos,
tú pierdes más que yo:
porque yo podré amar a otras
como te amaba a ti,
pero a ti nadie te amará
como te amaba yo.

(Pe.Ernesto Cardenal)

Não seremos felizes sozinhos (autor desconhecido)

Entre um jogo e outro
ter você nu na cama
que deleite.
E como a gente brinca
e rola e ri
para depois sentar
nos lençóis descompostos
o corpo ainda suado
e continuando sempre
o mesmo jogo
falar a sério
de literatura.
Te beijo no cangote
e quieta penso :
um outro amante assim
Senhor
que trabalho terias
pra me arrumar
se me tomasses este.

O DIABO VESTE PRADA (março, 2007)

Assisti ontem novamente, agora em DVD, o filme "O Diabo Veste Prada". Na primeira vez, fui "convencida" a assistir a este filme por um casal de amigos muito queridos, pois na minha cabeça era só "uma historinha sobre o mundo fashion". Saí do cinema impressionada, não só com a atuação da sempre maravilhosa Meryl Streep, mas por retratar o mundo corporativo no que ele tem de mais cruel, em que vale aquele velho lema : "ninguém dá ponto sem nó".


Pois bem, menos encantada com as roupas, bolsas, sapatos, maquiagem e glamour mostrados na telona, aluguei o DVD para assistir novamente e com calma o desenvolvimento do tema "o mundo corporativo e seus meandros". E surgiu na tela um outro tema que vez por outra também me aflige : os abusos que permitimos pelo medo (ou dificuldade) em dizer NÃO. Quantas vezes, em nossa vida pessoal e (principalmente) profissional, assumimos responsabilidades ou trabalhamos além do nosso limite ou nos envolvemos em programas que simplesmente nos desagradam, tão-somente porque não temos um mínimo de coragem e de desafiar dizendo NÃO ? NÃO posso fazer, NÃO posso comparecer, NÃO me interessa, NÃO tenho capacidade para acumular mais esta tarefa, etc. Claro é que dizer NÃO implica um outro trabalho, que é ajudar a pensar numa alternativa, uma outra solução para aquele problema que se pensava em resolver se você assumisse aquela responsabilidade. Fácil, né ? Não, não é não. Quando ousamos dizer NÃO (por qualquer razão), estamos tentando mostrar ao outro o nosso limite, estamos tentando pedir ao nosso interlocutor que nos respeite (à nossa opinião, razão, motivos, possibilidades física, financeira ou emocional). Nem sempre (ou quase nunca) somos bem entendidos, mas quem já tentou dizer NÃO, sabe que este é um caminho sem volta. É o que realmente nos garante a liberdade de ação, expressão e emoção. A liberdade para ser FELIZ !

Um vulcão em mim (autoria desconhecida)

Eu te espero , do jeito que gostas ,

Do jeito que queres,

Gemendo em “Ais”...

Jamais pensarias ,

Nesta mulher que um dia ,

Tu abraçastes, outrora,

Feminina e dengosa ,

Voltaria novamente !

Querendo em teu colo,

Sentar-se enroscada ,

Beijando tua boca , molhada,

Esquecida do tempo,

Recomeçando , tudo outra vez !

Homem dos meus pecados ,

De amores passados ,

Minha tara oculta ,

Da vida que vivi!

Quero de novo fazer ,

Loucuras tão doces ,

Vividas por mim e por Ti!

Como uma Deusa Pagã ,

Sensual e pecadora,

Tudo farei ,

Para teu corpo acender !

Por mais que vivas,

Jamais encontrarás ,

Uma Fêmea gulosa ,

E, tão apetitosa ,

Que nasceu ,

Para a Ti, satisfazer !

Meu desejo de Mulher,

Tão quente e fogosa ,

Que de ti nunca esqueceu,

Neste Mundo por onde andei ,

Por mais que procurasse ,

Igual a Ti ,

Homem nenhum encontrei !

Quero a ti me entregar ,

Venhas em meu pecado habitar,

Verás a lua e as estrelas ,

Quando em meus Céus , penetrares ,

Pois não existe outro lugar ,

Para tua masculinidade,

A Ti , satisfazer !

Sou tua fonte de prazer a jorrar ,

Como um vulcão, explodindo ,

A terra estremecendo ,

Quando juntos sentimos,

Nosso prazer ,

Ahhhhh ! AMOR ,

Que loucura ,

ELE vem vindo !!!!

A força das palavras – Lya Luft

(artigo publicado na revista Veja em 14 de julho de 2004)

"Viemos ao mundo para dar nomes às coisas: dessa forma nos tornamos senhores delas ou servos de quem as batizar antes de nós"

Palavras assustam mais do que fatos: às vezes é assim.

Descobri isso quando as pessoas discutiam e lançavam palavras como dardos sobre a mesa de jantar. Nessa época, meus olhos mal alcançavam o tampo da mesa e o mundo dos adultos me parecia fascinante. O meu era demais limitado por horários que tinham de ser obedecidos (por que criança tinha de dormir tão cedo?), regras chatas (por que não correr descalça na chuva, por que não botar os pés em cima do sofá, por quê, por quê, por quê...?), e a escola era um fardo (seria tão mais divertido ficar lendo debaixo das árvores no jardim de casa...).

Mas, em compensação, na escola também se brincava com palavras: lá, como em casa, havia livros, e neles as palavras eram caramelos saborosos ou pedrinhas coloridas que a gente colecionava, olhava contra a luz, revirava no céu da boca... E às vezes cuspia na cara de alguém de propósito, para machucar.

Depois houve um tempo (hoje não mais?) em que palavras eram cortadas por reticências na tela do cinema, enquanto sobre elas se representavam cenas que, como se dizia no tempo dos pudores, fariam corar um frade de pedra.

Palavras ofendem mais do que a realidade – sempre achei isso muito divertido. Palavras servem para criar mal-entendidos que magoam durante anos:

–.Você aquela vez disse que eu...

–.De jeito nenhum, eu jamais imaginei, nem de longe, dizer uma coisa dessas....

–.Mas você disse...

–.Nunca! Tenho certeza absoluta!

Vivemos nesses enganos, nesses desencontros, nesse desperdício de felicidade e afeto. No sofrimento desnecessário, quando silenciamos em lugar de esclarecer. "Agora não quero falar nisso", dizemos. Mas a gente devia falar exatamente disso que nos assusta e nos afasta do outro. O silêncio, quando devíamos falar, ou a palavra errada, quando devíamos ter ficado quietos: instauram-se, assim, o drama da convivência e a dificuldade do amor.

Sou dos que optam pela palavra sempre que é possível. Olho no olho, às vezes mão na mão ou mão no ombro: vem cá, vamos conversar? Nem sempre é possível. Mas, em geral, é melhor do que o silêncio crispado e as palavras varridas para baixo do tapete.

Não falo do silêncio bom em que se compartilham ternura e entendimento. Falo do mal de um silêncio ressentido em que se acumulam incompreensão e amargura – o vazio cresce e a mágoa distancia na mesma sala, na mesma cama, na mesma vida. Em parte porque nada foi dito, quando tudo precisaria ser falado, talvez até para que a gente pudesse se afastar com amizade e respeito quando ainda era tempo.

Falar é também a essência da terapia: pronunciando o nome das coisas que nos feriram, ou das que nos assustam mais, de alguma forma adquirimos sobre elas um mínimo controle. O fantasma passa a ter nome e rosto, e começamos a lidar com ele. Há estudos interessantíssimos sobre os nomes atribuídos ao diabo, a enfermidades consideradas incuráveis ou altamente contagiosas: muitas vezes, em lugar das palavras exatas, usamos eufemismos para que o mal a que elas se referem não nos atinja.

A palavra faz parte da nossa essência: com ela, nos acercamos do outro, nos entregamos ou nos negamos, apaziguamos, ferimos e matamos. Com a palavra, seduzimos num texto; com a palavra, liquidamos – negócios, amores. Uma palavra confere o nome ao filho que nasce e ao navio que transportará vidas ou armas.

"Vá", "Venha", Fique", "Eu vou", "Eu não sei", "Eu quero, mas não posso", "Eu não sou capaz", "Sim, eu mereço" – dessa forma, marcamos as nossas escolhas, a derrota diante do nosso medo ou a vitória sobre o nosso susto. Viemos ao mundo para dar nomes às coisas: dessa forma nos tornamos senhores delas ou servos de quem as batizar antes de nós.

Sobre o filme CLOSER (Perto demais)

Prá vocês, que têm se interessado pelas minhas reflexões e pelos meus escritos, segue um texto anterior ao filme (à época não tinha assistido ainda). Hoje este filme ocupa um lugar reservado dentre os meus favoritos, após tê-lo visto apenas uma dezena de vezes. O ponto forte é questionar o quanto é preciso e/ou possível suportar ao lidar com a verdade. Ou ainda : é realmente necessário saber a verdade o tempo todo ?

Lembrem-se de que sempre escrevo a partir de um sentimento ou refletindo sobre um texto lido; este é mais um, bem curtinho. E ainda hoje, não mudaria uma vírgula.


Um beijo,
Dayse
31/maio/2008

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Fevereiro/2005

Há algum tempo atrás, assisti no teatro a encenação deste texto. Lembro-me bem, pois saí do teatro com um certo desconforto. À época, creditei às instalações do teatro (Carlos Gomes, na Praça Tiradentes, RJ), achando que teria sido esta a causa do meu desconforto.

Ainda não tive chance de ir ao cinema para assistir a este filme. Afinal, estamos numa temporada especialíssima, em que o tempo me foge às poucas oportunidades que tenho para ir ao cinema (um dos meus programas favoritos) e as opções à minha escolha são inúmeras (umas 8 !).


Mas acho que encontrei, no jornal O Globo de hoje, uma resposta para aquele meu desconforto do passado. Ainda me dói “trocar o romantismo do passado pelo ceticismo das relações amorosas” atuais. Não sou tão prática e “moderna” assim. Ainda me “parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.” Taí o texto abaixo, de uma escritora que aprecio muito, e que traduziu melhor boa parte do que acredito ser o “desencontro” de expectativas nas relações atuais.


Bom domingo !
Dayse
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Publicado em 20 de fevereiro de 2005 na revista do Jornal O GLOBO (RJ)

Martha Medeiros - Interrompendo as buscas

ASSISTINDO AO ÓTIMO “CLOSER — Perto demais”, me veio à lembrança um poema chamado “Salvação”, de Nei Duclós, que tem um verso bonito que diz: “Nenhuma pessoa é lugar de repouso”. Volta e meia este verso me persegue, e ele caiu como uma luva para a história que eu acompanhava dentro do cinema, em que quatro pessoas relacionam-se entre si e nunca se dão por satisfeitas, seguindo sempre em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Não há interação com outros personagens ou com as questões banais da vida. É uma egotrip que não permite avanço, que não encontra uma saída — o que é irônico, pois o maior medo dos quatro é justamente a paralisia, precisam estar sempre em movimento. Eles certamente assinariam embaixo: nenhuma pessoa é lugar de repouso.

Apesar dos diálogos divertidos, é um filme triste. Seco. Uma mirada microscópica sobre o que o terceiro milênio tem a nos oferecer: um amplo leque de opções sexuais e descompromisso total com a eternidade — nada foi feito pra durar. Quem não estiver feliz, é só fazer a mala e bater a porta. Relações mais honestas, mais práticas e mais excitantes. Deveria parecer o paraíso, mas o fato é que saímos do cinema com um gosto amargo na boca.

Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas — sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o rodízio e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo “leve dois, pague um”, também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.

Não há nada de errado em curtir a mansidão de um relacionamento que já não é apaixonante, mas que oferece em troca a benção da intimidade e do silêncio compartilhado, sem ninguém mais precisar se preocupar em mentir ou dizer a verdade. Quando se está há muitos anos com a mesma pessoa, há grande chance de ela conhecer bem você, já não é preciso ficar explicando a todo instante suas contradições, seus motivos, seus desejos. Economiza-se muito em palavras, os gestos falam por si. Quer coisa melhor do que poder ficar quieto ao lado de alguém, sem que nenhum dos dois se atrapalhe com isso?

Longas relações conseguem atravessar a fronteira do estranhamento, um vira pátria do outro. Amizade com sexo também é um jeito legítimo de se relacionar, mesmo não sendo bem encarado pelos caçadores de emoções. Não é pela ansiedade que se mede a grandeza de um sentimento. Sentar, ambos, de frente pra lua, havendo lua, ou de frente pra chuva, havendo chuva, e juntos fazerem um brinde com as taças, contenham elas vinho ou café, a isso chama-se trégua. Uma relação calma entre duas pessoas que, sem se preocuparem em ser modernos ou eternos, fizeram um do outro seu lugar de repouso. Preguiça de voltar à ativa? Muitas vezes, é. Mas também, vá saber, pode ser amor.

em Itacaré (BA), na Casa do Boneco (março, 2005)

Queridos amigos e amigas,

Alguns de vocês sabem que eu adoro viajar. Passei uns 10 dias de minhas férias (que estão terminando...) na Bahia. Além da aula de história do Brasil, que viajando por esse Brasilzão a gente sempre rememora, aqui e acolá, aprende-se muito mais a respeito de um outro Brasil, aquele que nós, moradores dos grandes centros urbanos ouvimos falar, até vemos nos telejornais, revistas e jornais, mas pouco conhecemos. Um Brasil desprovido dos recursos que a ciranda dos mercados financeiros gera e alimenta, mas que se reinventa, se sustenta e se mantém de pé com dignidade, trabalho, alegria, como é característico no povo brasileiro.

Pois bem, com a suspeita de que iria participar de um típico programa PT (=pega-turista), no último dia 16 de março, estava em Itacaré, sul da Bahia, quando fui “convidada” a assistir a uma apresentação de uma organização da comunidade local – a Casa do Boneco de Itacaré. Embora meio descrente de que poderia ser um evento interessante, conforme descrito pelo agência receptiva local, lá fui eu.

O local é de instalações precárias, simples e rústicas, mas onde tudo funciona a contento do espetáculo. O idealizador e coordenador da casa, conhecido como Jorge Rasta (uma figura à parte !), é o apresentador de um show que dura cerca de 1h40. Ele é o líder do projeto junto às crianças da comunidade local, que ele se recusa a chamar de “carentes” e explica o porquê na abertura do show. Não conta com qualquer apoio financeiro externo, nem mesmo dos governos (município, estado ou governo federal); sequer possui o status de uma ONG. Pelo contrário : as atividade sócio-culturais por ele empreendidas ali visam apenas a auto-subsistência do projeto, com recursos arrecadados única e exclusivamente dos ingressos cobrados pelo show (2 vezes por semana – quartas e sábados), venda de bebidas no barzinho interno e artesanato típico na lojinha do local. Tudo muito rústico, simples e primitivo. E, repito, funciona !

Participam do espetáculo crianças de todas as idades (de 2 a 18 anos), de ambos os sexos. Destacaram-se, neste dia, na minha opinião, o “Curtinho”, o “pescador-bêbado” e a “Iansã”. Mas são todos crianças talentosas que certamente fariam sucesso, se estivessem num outro “contexto”. Na verdade, o projeto tem 18 anos (1987) e já trabalha ali a 2ª. geração de jovens, os mais velhos atuando como monitores e alguns já tendo partido para a capital e até mesmo para o exterior. O show é composto de apresentações de danças indígenas e africanas, primitivas e contemporâneas, candomblé e a dança dos orixás, maculelê, puxada-de-rede, todas entremeadas com as explicações culturais pertinentes, sempre narradas e apresentadas pelo Jorge Rasta. Ele discursa ampla e abertamente, de forma simples e clara, sobre a miscigenação dos povos que formaram o povo brasileiro (europeu, indígena e africano), sobre o forte sincretismo religioso vivido na Bahia até os dias de hoje, sobre o respeito à diversidade de culturas que deu origem à cultura brasileira. Uma despretensiosa aula de cultura brasileira.

A missão é manter elevada a auto-estima destas crianças, mostrando-lhes seu verdadeiro valor e sua importância no cenário de um Brasil e de um mundo que eles, até ali, não conhecem, mas que chega até eles pela mão do turismo crescente na região.

A grande lição que trouxe dali : nossos valores (modernos e urbanos) estão (dis-)torcidos, pois não precisamos de muito (dinheiro, status, posição social, etc), mas apenas elevar nossa auto-estima e trabalhar com respeito e dignidade. A CASA DO BONECO DE ITACARÉ vale a visita e o apoio. Doações são benvindas. Eu gostei e recomendo.

Seguem outras informações obtidas no site www.itacare.com.br.

Um abraço,
Dayse
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Casa do Boneco
A CASA DO BONECO DE ITACARÉ surgiu a partir do trabalho voluntário de Antônio Jorge de Jesus, conhecido como Jorge Rasta. Jorge nasceu no bairro de Alagados - Salvador e profissionalizou-se graças à Associação Livre de Moradores da Mangueira de Massaranduba que o inseriu no mundo da arte e da cultura.Com o desejo de multiplicar aquilo que havia aprendido, Jorge Rasta mudou-se para Itacaré em 1987. Em 1988 montou o primeiro grupo de capoeira e danças folclóricas do município. Desde então, vem realizando diversas atividades artísticas e culturais com crianças e adolescentes da comunidade. De lá para cá, o número de jovens que participam do projeto aumentou consideravelmente: em 2001, havia por volta de 70 crianças - atualmente são cerca de 100.A proposta da CASA DO BONECO é capacitar crianças e adolescentes para inseri-los no mercado turístico-cultural. Através da dança e da música, o projeto pretende melhorar a vida dessas crianças, aumentando sua auto-estima e dando a elas uma oportunidade para que possam garantir o seu futuro.
Principais atividades : . Teatro de bonecos. Danças Folclóricas. Danças Afro. Capoeira Angola. Origami arquitetônico. Educação ambiental. Reforço alimentar. Artesanato. Reciclagem
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Um pouco da História...
O município de Itacaré está localizado no sudeste da Bahia, a 520 km da capital do estado. A comunidade nativa é remanescente de quilombo. Sua origem remonta ao tempo dos jesuítas. Anteriormente chamada de São Miguel da Barra do Rio de Contas, recebeu o nome de Itacaré em 1931, tornando-se cidade em 1938.A base da economia do município era a produção de cacau, pois aqui se situava o principal porto de escoamento do sul da Bahia. Com a mudança do porto para Ilhéus e as pragas que afetaram a lavoura cacaueira na década de 70, iniciou-se o empobrecimento do município, tendo como conseqüência a migração da população rural para o centro urbano - fator responsável pela crescente degradação do meio ambiente e pelo aumento da pobreza.No início da década de 80, o turismo começou a surgir, dando novo impulso à economia local. Depois da construção da rodovia BA-001, trecho Ilhéus - Itacaré, o interesse turístico pela cidade aumentou de forma explosiva e a cidade foi descoberta pela mídia.Situada numa APA - Área de Proteção Ambiental, a cidade destaca-se pela beleza natural: praias virgens, falésias rochosas, restingas e mata atlântica original, onde a fauna apresenta grande diversidade de espécimes, estimulando o potencial eco-turístico da região.No entanto, a indústria do turismo vem aumentando também as desigualdades sócio-econômicas, trazendo problemas cujas principais vítimas são as crianças e os adolescentes.A CASA DO BONECO busca solucionar alguns dos problemas sócio-culturais gerados pelo impacto do turismo sobre a comunidade tradicional de Itacaré.

Objetivos. Resgate da cultura popular regional e da história local. Resgate da cidadania. Capacitação de crianças e adolescentes em atividades artísticas visando o turismo local. Formação de multiplicadores para a continuidade do processo educativo. Elevar a auto-estima das crianças e jovens envolvidos no projeto. Ensinar aos jovens a preservação do meio ambiente, transformando-os em monitores ambientais e fiscais da natureza. Proporcionar aos jovens da região atividades lúdicas e recreativasComo participarTodos os que desejarem assistir a um espetáculo único, que mantém a tradição quase extinta das danças folclóricas de origem africana (como a Puxada de Rede, o Maculelê, a Dança do Paturi e Danças indígenas), podem adquirir seu ingresso no local ou na recepção da rede hoteleira.
Horários: quartas e sábados às 20 hLocal: Subida para a Praia da ConchaConcha - Itacaré - BahiaCEP: 45.530-000Telefone: 73-251.3417casadoboneco@yahoo.com.br
Não deixe de assistir - é uma oportunidade de compartilhar de um emocionante resgate da nossa cultura.

outro texto que me faz pensar e escrever muito...

Quem morre?
(Pablo Neruda)

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias o mesmo trajeto,
quem não muda de marca,
não arrisca vestir uma cor nova
e não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão seu guru.
Morre lentamente quem evita a paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pingos sobre os "is" a um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam os brilhos dos olhos, sorrisos dos
bocejos, corações a tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no
trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deseja
ajudar.

Morre lentamente, quem passa os dias
queixando-se do azar ou da chuva incessante

Morre lentamente, quem abandona um projeto antes de inicia-lo,
não perguntando de um assunto que desconhece
ou não respondendo quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em suaves cotas, recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior do que o simples feito de respirar.
Somente a ardente paciência fará
com que conquistemos uma plena felicidade.

um pouco de poesia pra falar de mim

Da chegada do amor

Elisa Lucinda


Sempre quis um amor
que falasse
que soubesse o que sentisse.
Sempre quis um amor que elaborasse
Que quando dormisse
ressonasse confiança
no sopro do sono
e trouxesse beijo
no clarão da amanhecice.

Sempre quis um amor
que coubesse no que me disse.
Sempre quis uma meninice
entre menino e senhor
uma cachorrice
onde tanto pudesse a sem-vergonhice
do macho
quanto a sabedoria do sabedor.

Sempre quis um amor cujo
BOM DIA!
morasse na eternidade de encadear os tempos:
passado presente futuro
coisa da mesma embocadura
sabor da mesma golada.
Sempre quis um amor de goleadas
cuja rede complexa
do pano de fundo dos seres
não assustasse.
Sempre quis um amor
que não se incomodasse
quando a poesia da cama me levasse.
Sempre quis um amor
que não se chateasse
diante das diferenças.

Agora, diante da encomenda
metade de mim rasga afoita
o embrulho
e a outra metade é o
futuro de saber o segredo
que enrola o laço,
é observar
o desenho
do invólucro e compará-lo
com a calma da alma
o seu conteúdo.
Contudo
sempre quis um amor
que me coubesse futuro
e me alternasse em menina e adulto
que ora eu fosse o fácil, o sério
e ora um doce mistério
que ora eu fosse medo-asneira
e ora eu fosse brincadeira
ultra-sonografia do furor,
sempre quis um amor
que sem tensa-corrida-de ocorresse.
Sempre quis um amor
que acontecesse
sem esforço
sem medo da inspiração
por ele acabar.
Sempre quis um amor
de abafar,
(não o caso)
mas cuja demora de ocaso
estivesse imensamente
nas nossas mãos.
Sem senãos.
Sempre quis um amor
com definição de quero
sem o lero-lero da falsa sedução.
Eu sempre disse não
à constituição dos séculos
que diz que o "garantido" amor
é a sua negação.
Sempre quis um amor
que gozasse
e que pouco antes
de chegar a esse céu
se anunciasse.

Sempre quis um amor
que vivesse a felicidade
sem reclamar dela ou disso.
Sempre quis um amor não omisso
e que sua estória me contasse.
Ah, eu sempre quis um amor que amasse.

SÍNTESE DA FELICIDADE - Carlos Drummond de Andrade

SÍNTESE DA FELICIDADE - Carlos Drummond de Andrade

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica do Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na tv
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você

Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado

Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender uma nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel

E muito carinho meu.